Vigiai e orai, ou morra como um cão – O estado de Vigília

Vamos falar essa semana sobre os demais estados de presença. No artigo da semana passada explorei o estado do sono. O próximo estado é o estado de vigília. Quem nunca ouviu a frase “orai e vigiai”? No entanto , é mais correto dizer “vigiai e orai”. Vamos entender o porquê disso.

O estado de vigília ou de caminhar

Esse é um estado do qual passamos a outra metade de nossas vidas.  É nesse estado que nos locomovemos, tomamos decisões, fazemos negócios, falamos de política, matamos o vizinho, discutimos assuntos elevados e fazemos filhos. Enfim, é nesse estado que fazemos parte da vida. Porém, embora tenhamos alguma consciência, estamos passivamente inseridos na vida.  Tudo isso não passa de uma caricatura, embora ainda que muitos se considerem conscientes nesse estado. Todavia, entender isso exige um estudo imparcial para perceber o quanto precisamos de clareza nesse estado de vigília. Portanto, o estado de vigília é um estado de consciência “relativa”. 

Esse estado também recebe o nome de estado de caminhada (do inglês, “walking state”). Ou seja, um estado em que parecemos emergir do estado anterior de sono e podemos distinguir o que “eu sou” e o que são os objetos exteriores que não são o meu corpo. Também descobrimos as qualidades, funções e usos desses objetos. Percebemos também a dualidade e oposição entre o “eu” e o mundo. Tais distinções são tão superiores em relação ao estado do sono que levam a acreditar que esse nível equivale a uma consciência desperta ou uma consciência clara. 

No entanto, a única diferença entre esse estado de caminhada e o estado de sono é a presença da parte mecânica do centro intelectual. É isso que reage e associa a tudo automaticamente. Dessa forma, o centro inferior mental retoma sua capacidade de coordenar as várias impressões e associações recebidas dos vários centros. Todavia, muitas das características do estado de sono ainda estão presentes. Entre elas, a desconexão dos centros superiores e a falta de harmonia entre os centros inferiores. Enfim, não há confronto direto entre os centros e cada centro segue a sua própria imaginação. 

Somos máquinas que andam

Em outras palavras, somos uma máquina. Um computador sofisticado que utiliza de percepções sensoriais, emoções e desejos para alimentar e processar um mundo de conexões de associações. O aparato mental recebe impressões de aprovação e desaprovação, alianças e contradições, possibilidades e impossibilidades. tudo isso se mistura a conteúdos fantasiosos, imaginação e pensamentos automáticos. Porém, é isso que ganha posse da atenção como se fosse mais importante que a realidade interior e a percepção exterior do momento. 

Essas respostas mentais, das quais envolvem os demais centros, não possuem nenhuma direção. Além disso,  substituem as respostas do verdadeiro “eu” que está dormindo. Tudo ocorre de maneira para perceber um contínuo de uma personalidade ilusória. Essa personalidade, por fim, assume o lugar da individualidade real. Contudo, uma pessoa não pode perceber isso pelo estado que se encontra. Não entendemos que as decisões de nosso aparato mental são tomadas por um ladrão.

Para acordar é preciso perceber

Para que possamos acordar desse estado de sonambulismo, onde caminhamos em sonhos e ilusões, é preciso ver impiedosamente o que somos. Devemos fazer isso até que não haja escapatória a não ser reconhecer a nossa realidade interior e reconhecer que não somos lúcidos de forma alguma. Percebemos que, por mais ativos que pareça ser a nossa vida, tudo não passa de reações a informações recebidas e a memória gravada.

Somos uma máquina que recebe uma complexa programação da educação, do ambiente ao nosso redor e dos hábitos formados. Assim, é uma vida interior puramente passiva a reação e associações. No entanto, é suficiente para a funcionar no mundo. Um centro toma o controle do outro e não há necessidade de atuação conjunta. O verdadeiro “eu” está soterrado. Ainda dorme como a bela adormecida à espera de um príncipe para lhe despertar. Nada chega à essência. Dessa forma, essa não cresce e não participa da vida. Logo, o verdadeiro “eu” está em um estado completo de passividade.

“Não sabemos que estamos adormecidos e não vemos que tudo o que fazemos consiste em reações inconscientes sob a influência dos sonhos e das forças externas que modelam e dirigem o aparelho mental. E é por meio disso que fazem uso de nós sem o nosso conhecimento e sem que tenhamos consciência disso.  Vivemos dormindo sem saber e não entendemos que a primeira coisa que devemos fazer é acordar. Ou seja, conseguir a qualquer custo despertar o “eu interior”.”

A ausência das grandes faculdades mentais

As influências das grandes faculdades mentais nos chegam de forma fragmentada, enquanto estamos no estado de vigília. Recebemos fragmentos de consciência através de um centro dominante. A vontade muda de momento a momento. Por fim, a atenção está dispersa e movendo-se de um objeto para outro ou capturada por algum aspecto fascinante. A vontade é um simples desejo passageiro ou impulso. O palco da vida é ocupado por diversos personagens (ou “eu” fragmentados) que são feitos da mesma substância. Ao mesmo tempo, estão presentes em diferentes proporções. Não há um “eu” permanente, mesmo que aparentemente uma ideia ou emoção se apresenta como fixa. 

A cegueira da ilusão no estado de vigília

Uma pessoa não pode ver este estado. Pior ainda, mesmo se pudesse ver não iria acreditar. Logo irá dar diversas explicações para sua incoerência interna para justificar seu comportamento. Dessa forma, irá manter vivo o seu castelinho de fantasias. Gurdjieff dizia que esse estado é pior que o estado de sono porque em sono uma pessoa encontra-se totalmente passiva e não é capaz de fazer mal a ninguém e nem ao seu redor. 

As pessoas acreditam estar acordadas por terem esquecido completamente seu verdadeiro “eu”. Não mais lembram de si. Dessa forma, somente lhe resta satisfazer-se com o que são. Possuem pouco conhecimento útil de si. Ainda por cima, preferem substituir tal conhecimento sobre a realidade de si e do mundo por sonhos e imaginações. Se um choque da vida lhe traz questionamentos interiores, logo seus mecanismos automáticos de desculpas e amortecedores psicológicos lhe confortam. Assim, as questões se movem para fora de si e passam a ser direcionadas às circunstâncias. Também ao comportamento de outras pessoas que não dependem dele. Como diria Homer Simpson, “ a culpa é minha e eu a coloco em quem eu quiser”. Definitivamente Homer é um excelente exemplo desse estado de sonambulismo. 

“O poder da imaginação, em particular, mantém o homem em um estado constante de hipnose real, no qual as falsas idéias que ele inventa sobre si mesmo, e o amor-próprio com que ele as defende, o impedem de ter a chance de se ver como ele  é.”

Jean Vaysse

A dura e árida realidade 

A dura e árida realidade é que neste estado não temos nenhuma daquelas propriedades que tão prontamente atribuímos a nós mesmos. Não temos nenhuma unidade em si na vida, não temos consciência clara, não temos verdadeira vontade. Por consequência não há liberdade e nem muito a verdadeira capacidade de fazer.

Não lembramos o que somos. Estamos sempre a esquecer. O passado tem mais importância que o presente. A ausência de lembrança de si, identificação total com o que acontece exteriormente, oposição às pessoas e circunstâncias, imaginação falaciosa e fantástica sobre si são os alimentos a uma colossal vaidade. 

Qual o futuro de quem acredita já ser consciênte?

Só há futuro para aquele que chega no entendimento que suas fundações estão em um terreno arenoso. Não há nada de sólido em sua vida psicológica. Tudo foi desenvolvido em seu máximo potencial exterior para realizar as funções da vida. E é esse o fim. Daí para frente não há mais nada além de um vazio existencial, mentiras sobre si e vaidades infundadas. Definitivamente todo esse processo de autoconhecimento é um processo doloroso. No entanto, só há saída para aquele que entende sua verdade, entende o terror de sua situação. Aquele que chegou até aqui, deve extinguir totalmente a esperança naquilo que acredita possuir. Todavia, é necessário acreditar que algo novo pode renascer desse conteúdo. Assim como a flor de lótus que nasce do lodo podre dos pântanos.

Tudo isso requer grande esforço intencional direcionado a um propósito. Tudo começa a desejar desesperadamente fazer crescer sua essência. Ao mesmo tempo, o desafio de crescer está na falsa personalidade. Porém, é possível fazer acontecer. Os esforços precisam ser desempenhados com vontade. Também é importante receber ajuda de quem já percorreu o caminho. Difícil, porém, disponível e possível a todos que queiram dedicar sua jornada da vida com amor e virtude.

“Toda esperança de evolução individual está finalmente perdida para esse que entende o terror de sua situação. Apesar das possibilidades de outra ordem, ele é, e, sempre será apenas um espécime de animalidade superior. Terá servido aos fins da grande natureza e tudo o que lhe resta é “morrer como um cachorro.”  O homem comum, o homem a máquina, é apenas pó e ao pó ele retorna.”

Jean Vaysse

Entenda que cabe a você decidir se quer morrer como um cão.

Semana que vem continuaremos a explorar os estados de presença. Uma ótima semana de estudos para vocês.

Lauro Borges

Esse é o quinto artigo de uma nova série onde publico trechos, notas e comentários sobre o livro Toward Awakening: An Approach to the Teaching Left By Gurdjieff” de Jean Vaysse.

1 comentário em “Vigiai e orai, ou morra como um cão – O estado de Vigília”

  1. Quando a gente vive uma grande papagaiada, uma repetição, mesmo que seja uma vida bonita, é karma. E nesse ponto os cães estão melhores.
    Quando se vê o terror da situação, mesmo que seja muito difícil nesse momento começa o dharma.
    É complicado explicar isso e as vezes as pessoas não gostam quando entendem isso.

    Responder

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