Sou Mestre, ME SIGA! Esta armadilha pode detonar sua alma.

Gurus curas, luz iluminação e sombras
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Algumas semanas atrás, eu discutia com uma amiga sobre uma postagem que ela fez sobre a tendência de idolatria das pessoas por um Mestre, criando com isto os famosos “Gurus” da internet. Proliferação esta impulsionada pelo boom da mídia digital. O comentário era de como as pessoas gostam de encontrar influencers e mestres, sempre buscando atalhos para alcançar os  resultados. No entanto, nada se constrói solidamente sem esforço e dedicação. Nem mesmo a fama de Guru. 

Hoje proliferam gurus de todos os tipos, masculinos e femininos. Do “fitness e saudáveis” aos “tenha sucesso”.  As redes sociais tornam-se um paraíso para aqueles que procuram ser gurus e também para aqueles que querem encontrar um guru que os dirijam e os liderem.  Certamente, que aqui e ali, existem verdadeiros gurus.  Mas, como os Tantras reconhecem, os verdadeiros adeptos da compreensão espiritual são muito raros. São raros não só no meio espiritual, mas, em todas as áreas de atuação. 

Mestre não possui estrela na testa

Desta forma, um guru precisa de seguidores. E seguidores estão ávidos pelos gurus. Então, esta é uma via de mão dupla. No entanto, o próprio nome Guru é usado muitas vezes de forma pejorativa. Seu significado verdadeiro é de mestre ou líder espiritual. Todavia, acabou  sendo incorporado como um sinônimo de pessoa de grande saber em uma área de atuação da qual se tornou “a referência” no tema.

Assim sendo, não devemos enxergar o Guru de forma negativa. Ainda mais em relação a importância de mestres no campo do desenvolvimento espiritual. Podemos observar que, quanto mais vamos aprofundando em terrenos não explorados de nossa alma, mais precisamos de referências. Não ter referências cria um risco enorme de se perder nesta jornada. Então, é indubitável da necessidade de mestres, professores, guias, coaches, terapeutas, padres, pastores e outros nomes que possamos dar às pessoas que fazem os papéis de gurus (verdadeiros) na nossa cultura espiritual ocidental.

Tais gurus, se sérios, terão como princípio condições éticas, boa formação no que se propõem a ensinar e entenderão seus limites. E,  acredito eu, a grande maioria dos gurus possuem boa intenção em ajudar os outros. No entanto, as armadilhas da idolatria, dependência e poder andam lado a lado com o desenvolvimento espiritual. As pessoas esquecem que o referido guru é ainda um ser humano, falho e cheio de defeitos pessoais. Quanto maior o “poder” atribuído ao dito guru, mais as pessoas transferem sua fé ao mestre. Ou seja, quanto mais “milagres” lhe é atribuído, maior a crença em sua infalibilidade. Se

Precisamos de um Mestre?

Da mesma maneira, o papel de um mestre consciente é ser sim um líder espiritual, ensinando pouco a pouco os seus discípulos a também tornarem-se mestres. Afinal, quando ingressamos em uma jornada de crescimento pessoal pouco conhecemos. Somos como crianças neste novo mundo de fantasia, magia, ilusão e mistério. Logo, o mestre faz as vezes da voz interior do discípulo que não possui ainda confiança ou mesmo completa ausência de um mestre interior pessoal para lhe guiar. Assim, o grande objetivo de qualquer guru é, aos poucos, empoderar e elevar os que o seguem.

idolatria
precisamos de Mestres?

Porém, existe um certo mote de certos ditos “gurus” (agora pejorativo) da atualidade. Muitos fazem uma pregação que mistura  sucesso  material e espiritual. Há um apelo popular à religiosidade sentimental que é pregada às pessoas mais infelizes, cujas vidas vazias clamam por uma volta ao rebanho de Deus. 

Assim, existe também no seguidor, uma sensação de ter se desviado do caminho, ou um sentimento de  vazio envolvente. E este vazio existe, independe de quanto sucesso tal seguidor obteve em sua vida material, pois, o vazio está em sua alma. É um vazio existencial que nenhum sucesso exterior pode preencher.  Desta forma, o mestre aparece como uma pessoa que lhe entrega uma revelação.  O mestre, que possui uma aparência magnética e dramática, promete reconduzir suas vidas à felicidade e sucesso.  Este fenômeno é independe de religião, indo além da mesma. Ainda mais, com o poder de criar novas seitas e grupos dos mais distintos tipos.

Fiquei com esta história do guru na cabeça por uns dias até que mais uma vez este tema veio bater em minha porta. Além de uma conversa com outra amiga, me chegou em mãos um texto sobre o lado sombrio de PD Ouspensky, um grande professor do Quarto Caminho, contando sobre sua falibilidade e a ausência de senso crítico de seus seguidores. Neste texto, sua ex secretária Marie Seton, relata de maneira brilhante como mestres (ou gurus) bem intencionados passam a criar um culto pessoal, usufruindo cada vez mais da influência de seus seguidores.

Ela relata, com certo receio em expor o caso, pois, não havia mágoas e nem interesse em julgar os fatos ocorridos a tanto tempo. Também, não havia a intenção de prejudicar toda a importância da obra de Ouspensky. No entanto, Maire viu a chance de compartilhar a lição de que é possível superar um guru. Com certeza, o caso de P. D. Ouspensky não é isolado. E de longe foi o pior deles. Na verdade, é uma situação típica, quando o objetivo consciente ou inconsciente de alguém, é se tornar um guru de sucesso. Porém, por força de circunstâncias externas, esta pessoa acaba incapaz de lidar com suas próprias reações e, portanto, a perder sua retidão. 

Bons Mestres se perdem também

Ouspensky era um mestre que nunca chamou a atenção a si. Tinha muita polidez, educado, inteligente e com nenhuma imagem convencional de um místico. Desta forma, atraiu estudantes na Inglaterra em meados 1924 que não tinham lugar na religião ortodoxa As pessoas que se ligavam as idéias de Ouspensky eram aquelas que tinham interesse  em autoconhecimento e buscavam uma filosofia de vida pela qual não fosse  pela ortodoxia religiosa.  Ouspensky era uma pessoa racional que  questionava a verdade como “ser ou não ser”  de Hamlet. Ele era alguém vivo e provocador.  Daí a sua  capacidade de atrair pessoas prolíficas e inteligentes. Acima de tudo, tinha  cultura sofisticada, sem um vestígio de excentricidade de faquir.  Ele  era um mestre sensato em seus primeiros anos que decidiu abandonar o trabalho junto ao Gurdjieff e seguir seu próprio caminho.

Marie diz “ Minha tentativa de relatar este período relativamente curto – um pouco menos de seis anos no total  de sua longa vida – não é desacreditar Ouspensky, e particularmente não desacreditar sua obra.  Mas, antes, induzir as pessoas que não são críticas aos seus  gurus, para ver que eles mesmos contribuem inconscientemente para que seu amado guru  desvie de seu caminho. A adoração ao herói não é necessariamente respeito.  Pode-se tornar  dependência servil, terminando numa tentação avassaladora ao guru de perder todo respeito pelos que tornaram discípulos.  

cont…

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Devemos lembrar  que o homem não é super-humano. É muito fácil para a pessoa bem-intencionada  desenvolver delírios de grandeza ou se tornar um ditador. Basta estar cercado por tempo suficiente por pessoas que dizem “sim, sim” ao mestre e suas idéias,  independentemente de sua própria conduta merecer tal admiração.  Do mesmo modo, político, o ditador tem sido o flagelo dos tempos modernos e antigos.  A ascensão de tais  ditadores, muitas vezes acreditando ser o salvador de sua nação e seus  entrincheiramento, é auxiliado por passividade e adulação acríticas, exatamente como os devotos dos gurus mais propensos a isso.  Assim, e o guru acaba explorando seus discípulos, eles mesmos contribuíram para  a distorção de seu poder. “

Quer testar um alguém? Lhe dê poder…

Mas o que levou Ouspensky a desviar tanto de seu caminho? Marie, conta em seu texto, foram  momentos vividos de total displicência de Ouspensky com seus seguidores, com a ética e com o trabalho interior. Ouspensky não mais dava atenção ao grupo que lhe seguiu da inglaterra ao EUA. Passou a bajular os americanos ricos e famosos que se aproximavam dele com gordos cheques. Cheques que cada vez mais pagavam suas extravagâncias como jantares e bebidas, enquanto a europa mergulhava em mais uma grande guerra, a segunda guerra mundial.

Marie relata vários momentos de conflito moral, onde observou as falhas de seu mestre e a cegueira de seus súditos. Seus seguidores eram humilhados e ignorados, mas, tinham tudo como um teste de caráter, um exercício do mestre em fazê-los enxergar suas próprias fraquezas. Marie finalmente tomou a decisão de abandonar o grupo e retornar a inglaterra. A revelação lhe chegou em um dia que Ouspensky cancelou uma importante palestra, em cima da hora, para simplesmente curtir um jantar diferente onde ela foi convidada. Neste dia, a sós com Ouspensky,  teve a chance de uma última conversa sincera. 

cegueiras
Mantenha seu senso crítico

Ouspensky, sem rodeios, lhe revelou que assumiu responsabilidade antes de ter ganho controle suficiente sobre si. Simplesmente não estava pronto. Marie diz a Ouspensky que seu comportamento era absorvido pelos seus séquitos como um teste de provação, nunca como uma falha de seu mestre. Em resposta a Marie ele responde que os outros eram todos tolos e que ele mesmo já tinha perdido sua fé. No entanto, ele aceitou que não poderia se livrar da pecha que o ‘guruismo’ profissional  ganhou sobre ele, por toda dependência criada.

“Lamento, porque não senti por um momento que Ouspensky queria estar nessa situação de desilusão. Não queria a percepção de que ele havia tentado se tornar um guru quando ele não alcançou seus recursos para manter o controle de si. P. D.  Ouspensky.  era um homem sincero;  um homem que não era de forma alguma  desprovido de compaixão pelas pessoas.  Mas, adulação, conforto e escassez de amigos, além do terror de um período de guerra, havia minado sua vontade de manter unidas a teoria e a prática.”

Marie Seton

Se um homem com as qualidades inegáveis ​​de Ouspensky, ilustre aluno e braço direito de Gurdjieff, pode perder a retidão, ser absorvido pelo egoísmo e pela dependência da vida fácil; tornar-se insensível quanto aos efeitos sobre si e sobre os outros, o que dizer dos gurus que são menos honestos?

Definitivamente ser um guru é uma das ocupações mais arriscadas psicologicamente falando. No entanto, ser um devoto não é tão menos arriscado. 

“Às vezes me pergunto quanto dano P. D.  Ouspensky causou psicologicamente com as pessoas que eram seus devotos durante  o período em que ele se perdeu.  Também me perguntei o que foi que o chocou. Ouspensky foi essencialmente um homem bom e não desonesto.” 

A adoração de heróis sob o disfarce do devoto-guru torna o relacionamento freqüentemente uma combinação mortal para os dois lados, mesmo quando é espiritualmente  esclarecedora. Ouspensky retorna a inglaterra no final da guerra onde dizem ter morrido abandonando o sistema que dedicou tanto durante sua vida.

Este, e tantos outros casos, nos servem para poder refletir sobre a responsabilidade que cada um possui neste trabalho. Precisamos de um do outro para poder crescer. no entanto, a dependência emocional entre mestre e discípulos é um perigo imenso. Isto de forma alguma significa que não deve ter afeto entre mestre e alunos. Pelo contrário, deve ter o verdadeiro afeto, o amor incondicional que não aprisiona as pessoas, que oferece o caminho livre e respeito mútuo como seres humanos, sempre passíveis de serem imperfeitos que somos. Além disso, a armadilha de transformar crescimento espiritual em negócio é de criar uma massificação do produto, onde o que importa é o volume, e, não os resultados. Seguidores tornam-se uma fonte de renda para quem usufrui da riqueza.

Ser Mestre dos outros exige que seja Mestre de si primeiro

O abuso da fragilidade emocional e intelectual de quem se aproxima como seguidor é, muitas vezes, só um reflexo da própria fragilidade do mestre. Soma-se ainda os vários casos de assédios e abusos sexuais. Basta lembrar o escândalo recente que vivemos no Brasil (veja lista de recomendações de filmes e séries). Além do mais, esta sombra do guru também é a mesma que afasta os grupos e religiões, pois, tudo não passa de justificativas para disputas de hegemonia, poder, privilégios, recursos financeiros e prestígios.

Em conclusão, é importante ter um mestre. Escolha o melhor que você conseguir. Pegue boas referências. Mas, nunca esqueça que a responsabilidade final sobre sua vida é única e exclusivamente sua. No fim das contas o aluno deve assumir as propriedades que lhe são ensinadas. Você deve aprender as coisas, testar em ti, usá-las. Daí você saberá se são úteis ou não, criar seu senso crítico e distinguir o que lhe é bom e o que não lhe presta.

Bom, aqui vai um conselho final… você quer ter 1 milhão de seguidores? Para isto basta tornar-se guru. Porém, tente ensinar a liberdade aos outros e terá sorte de encontrar 10 pessoas que queiram verdadeiramente trabalhar em si.

No entanto, não se pode ensinar liberdade enquanto se escraviza seus seguidores. E, neste processo de escravidão, o senhor também vira escravo. 

Veja na TV

Wild Wild Contry – A polêmica passagem de Osho pela América. Realmente impressionante. Veja e tire suas conclusões.

Mucho Mucho Amor – A história de Walter Mercado. Quer saber de algo não contado no documentário? Ele foi aluno de Osho.

Kumaré – Um cineasta indiano se faz de Mestre espiritual e engana uma cidade. É um reality show. Pena que não está mais na Netflix

Em nome de Deus – Este eu não vi. Documentário sobre o caso João de Deus. Dispensa comentários.

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