Manifeste-se antropofágico

Digerir as impressões é também digerir a si mesmo. E por que não dizer que é também um processo antropofágico? O escritor Oswald de Andrade apropriou-se desse termo em seu manifesto antropofágico. Manifesto que simboliza a revolução cultural do modernismo no Brasil. O termo “antropofágico” está relacionado a “antropofagia”. Refere-se ao ato de comer a carne de outro ser humano. Esse era um costume de algumas culturas primitivas. Então, quem devorava a carne de outra pessoa, estaria assim adquirindo as habilidades da pessoa devorada.  

Oswald de Andrade utilizou esse termo para a urgente necessidade que o Brasil tinha (e porque não dizer ainda tem) de “devorar e deglutir” a cultura que nos foi imposto. Contudo, tal ato visava a digestão e incorporação das técnicas necessárias, porém, sem perder a originalidade dos artistas brasileiros. Para ele era necessário um movimento embasado na revisão crítica de um passado histórico e cultural

Assim, o movimento antropofágico tinha como ideia de “devorar” essa cultura enriquecida por técnicas importadas e promover uma renovação estética na arte brasileira.

“Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz. Tupi, or not tupi that is the question. Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos. Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.”

Manifesto Antropofágico – Oswald de Andrade

É com esse primeiro parágrafo que Oswald de Andrade abre seu manifesto antropofágico. É interessante notar o paralelo com Gurdjieff e seu conceito “Trogoautoegocrat” ou a Lei da Manutenção Recíproca. Contudo, é através desse processo que toda a matéria de um grau inferior é usada como alimento da escala superior. Assim, as plantas são alimentos de animais que são alimentos do homem. E a nossa alma, do que ela se alimenta? O processo de crescimento de nossa alma ocorre com a digestão das impressões em nós depositadas. Se uma pessoa consegue digerir tudo que lhe foi imposto pela cultura, lhe restará somente a si. Afinal, estará cristalizado nessa pessoa o que ela digeriu, absorveu e utilizou para definir o que é o seu ser. Estará nessa pessoa o que ela tomou para si, para o seu poder. De outra forma, não estará nessa pessoa o que ela eliminou nesse seu processo de digestão.

O comedor de gente
O Abaporu – reflexão ou falta de reflexão?

Oswald de Andrade cita em seu manifesto Freud e a psicanálise. Em especial, há a referência ao livro de Freud “totem e tabu”.  Assim como Gurdjieff, Oswald via na arte o poder de um grande instrumento de reflexão. Foi ele que batizou o famoso quadro da artista paulistana Tarsila do Amaral no ano de 1928. Essa tela foi batizada de Abaporu por uma junção dos vocábulos tupis: aba (homem), pora (gente) e ú (comer). Assim, o famoso quadro “do pé grande” de Tarsila significa “homem que come gente” ou “homem antropófago”.

O quadro Abaporu, como em um processo de Legonomismo, é uma obra de “erro proposital”. Assim, é nessa inexatidão que se encontra o elemento a ser transmitido. Observamos uma figura humana sentada em uma posição pensativa. Ao seu redor uma paisagem árida e ensolarada. Entretanto, o que chama atenção de todos é o tamanho desproporcional dos membros em relação a cabeça. Uma mão gigante e um pé gigante está desproporcional a cabeça.

São os pés e as mãos que usamos para realizar os trabalhos da vida. Os pés nos levam e carregam o peso do corpo. As mãos são a expressão do trabalho para o sustento na vida. Assim, essa desproporção mostra o trabalho braçal do brasileiro. Por outro lado, a cabeça pequena mostra uma falta de pensamento crítico. Principalmente uma ausência de pensamento crítico sobre o que é ser brasileiro. A cabeça apoiada na mão e o cotovelo no joelho, traz um sentimento de abatimento, infelicidade, apatia ou depressão.

Esse quadro reflete a vida de quem é vivido por aquilo que lhe é imposto pela cultura exterior. O Abaporu ou “homem que come gente” é a expressão do status quo de uma cultura sem reflexão. Assim, é essa cultura que conduz a vida das pessoas.  Somos mastigados por esse “sistema” para servi-lo. Há falta de harmonia e proporção. Devemos lembrar que essa obra refletia sobre a “vida moderna” do século 20. Onde uma revolução industrial crescente impunha cada vez mais os conceitos do capitalismo, consumismo e eurocentrismo. Acredito que se Tarcila fizesse uma atualização de sua obra nos dias de hoje, provavelmente os pés e mãos cobririam totalmente a tela.

O processo antropofágico de Oswald de Andrade era uma busca por uma expressão verdadeira da cultura brasileira. Uma cultura plural. Onde já existia índios e suas tradições. Onde um “Brasil” foi “criado” por europeus e negros, forçados ao maior êxodo da humanidade. Porém, é o que somos. Não somos somente uma cultura europeia. Todos recebemos essa carga de cultura. Ela nos é depositada por nossas famílias e sociedade. Porém, são muito desses valores e problemas mal resolvidos que impactam nossa vida a todo momento. Tudo isso está sempre gritando “olhe para isso!” e estamos sempre fugindo dessas questões. E a espiritualidade é a mais nobre fuga da dor. É sempre mais fácil olhar para a espiritualidade que digerir o que se é.  

A vida em harmonia é uma vida onde tanto somos alimentos da nossa cultura quanto somos alimentados por ela. A cultura reflete a vida coletiva que estamos inseridos neste presente momento. Um país melhor, uma sociedade melhor, pais e mães melhores, filhos melhores só existem quando cada indivíduo fizer sua própria digestão e criar em si essa evolução.

Oswald de Andrade e a revolução cultural modernista foi provavelmente uma lufada de vento sobre a necessidade urgente do ser humano tornar-se dono de seu destino. Mesmas lufadas que sopraram no começo do século 20. Tais ventos são marcadores de era. Mostram a necessidade de se alterar o rumo de nossas relações interiores e exteriores. O que acontece hoje é somente o fruto de milhares de ações do passado que reverberam dentro da cultura da humanidade. Quando aprendemos esse processo de reflexão, estamos criando um filtro para o que desejamos que perdure e o que queremos eliminar. Esse é um processo muito longo. Porém, tenha consciência que você está nessa missão a todo momento, enquanto estiver vivo. Seja de forma consciente e voluntária ou inconsciente e involuntário.

3 comentários em “Manifeste-se antropofágico”

  1. Diante desse excelente texto fica a questão, viver no Brasil é melhor por tantas conflitos de gerações das mais diversas culturas e crenças se encontrando e se reunindo aqui dando oportunidade de trabalharmos diversas questões ancestrais, ou seria mais fácil trabalhar uma questão por vez!? Acho que temos uma oportunidade aqui….rsrsrs

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    • É um bom ponto. Para Gurdjieff cada país tem uma função nessa escala cósmica. As Américas possuem esse aspecto que você mencionou. Muitos relacionam principalmente os Estados Unidos com a atlântica e como um país que nessa era possui a missão de conduzir a evolução do ser humano. Por mais problemas que possuem ainda são uma excelente referência em democracia e liberdade.

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      • Agora me espantei com o que ele pensava dos EUA, porque na minha humilde opinião infelizmente esse país falhou feio nessa missão até agora….rsrsrs vai ver que vai começar daqui pra frente, começando o processo de perder o posto de líder soberano mundial, mas isso é especulação, os mestres com certeza sabiam e sabem como as coisas se encaminhariam quando falavam. Fiquei ainda mais interessada, muito legal essa parte, obrigada por partilhar Lauro!!❤️🙏

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