Condições e significados para a verdadeira auto-observação

Sei que já tratei neste blog muitas vezes sobre o tema da auto-observação.  Esse é um tema central nos ensinamentos de Gurdjieff e requer uma compreensão verdadeira. Grande parte do tempo estamos observando os objetos, “as coisas”. Mesmo quando estamos nos observando, ainda estamos observando “isso” e não a “si mesmo”. Em outras palavras, estamos observando subjetivamente e não objetivamente. 

Assim, recebemos tudo que vem do mundo apenas pelo ponto de vista interior do “eu” que está identificado com aquele momento. Um fragmento de “eu”, um pequeno pedaço de uma história que ignora a totalidade dos fatos. A verdade é que esse eu não tem significado, exceto em termos da vida. Sentimos que somos o umbigo de um mundo que vemos do nosso ponto de vista. Porém, para o mundo não somos nada. Não somos nem mesmo um grão de poeira.

“Se tivermos alguma compreensão dessa situação, começamos a nos questionar sobre nós mesmos e percebemos que precisamos aprender a nos voltar para nós mesmos e para nossa vida interior.  Precisamos nos ver como somos, em vez da imagem que temos de nós mesmos.”

Jean Vaysse

Todavia, não temos nenhuma obrigação de realizar essa pesquisa, de buscar essa compreensão. Nada disso é necessário para simplesmente viver no atual nível de consciência que se encontra. Antes de tudo, talvez você tenha de se perguntar: eu estou feliz com o que sou? Estou feliz com os rumos da humanidade? Acho que estou deixando algo melhor para meus filhos e/ou para a próxima geração? Tenho sido honesto comigo? Nenhum esforço de trabalho interior tem significado quando se está desconectado de uma busca maior e verdadeira. Assim como do desejo de ser mais plenamente si mesmo.

Então, alguém pode se perguntar como saber se está fazendo certo. Como realmente saber se está realizando a auto-observação? Quando ao realizar a verdadeira auto-observação se percebe a presença de três forças ou fatores. Assim, a qualidade da observação depende da qualidade de cada um desses três fatores.  Esse fatores são:

  • O “eu que observa”, 
  • O “que fica face a face” com o que observo dentro de mim;  
  • Uma atenção que os conecta.

A atenção que normalmente temos é uma atenção unilateral. Está sempre  direcionada para o que observamos e não levando nada além disso em consideração.

Para começar, nossa atenção está presa somente a um lado. A atenção está presa ao objeto e totalmente identificada com tudo que acontece. No entanto, essa prática exige que a atenção ora vá para uma direção, ora para outra. A atenção deve ir ora para mim, ora para o que observo em mim. Assim, podemos alternar sua direção a uma velocidade mais rápida ou mais lenta.  Podemos notar que essa alternância de direção é mais fácil numa direção do que em outra.   

Porém, no início não há um suporte estável para a atenção.  A verdadeira auto-observação, depende tanto desse suporte quanto da própria atenção.  A construção desse suporte vem do entendimento de que essas três forças devem estar presentes em si. Além de que essas forças são intimamente interdependentes: o observador, o observado e as direções da atenção.

Se você observar, rapidamente notará como tudo acontece sozinho em nós. Estamos a  falar, rir, sentir, agir o tempo todo. Todavia,  “isto” faz automaticamente e nós mesmos não estamos lá.  Uma parte ri, outra fala enquanto outra age.  Não sentimos: “eu falo”, “eu ajo”, “eu rio”, “eu observo”. O mesmo ocorre no processo de auto-observação quando não estamos presentes. 

“Nada que seja feito dessa forma pode ser integrado em um todo.  Vivemos no esquecimento de si mesmo, e tudo acontece sem deixar rastros, a vida se vive, mas não há “fruto” para quem a vive.”

Jean Vaysse

A auto-observação é inútil se qualquer observador puder tomar o meu lugar. É inútil se “eu”, o sujeito, não estiver lá para entender o que acontece enquanto a observação está acontecendo.

Talvez uma pessoa com menos experiência possa perguntar por onde então devemos começar a observar. Como tudo na vida, tudo começa pelo nível mais simples. Comece por lutar contra os condicionamentos usuais de nossas posturas físicas . Pelos hábitos que nos fazem parecer o que parecemos ser.  Isso é uma luta por parecer inútil no presente imediato. É uma luta por causa de sua incapacidade de mudar o que quer que esteja lá. Além disso, adicione o engano de esperar que mudanças aconteçam do nada. Tudo isso exige persistência e energia. É tedioso, difícil e cansativo.

No entanto, você pode acreditar na antiga frase Veritas vos liberabit, ou seja, a verdade vos libertará. Se lembramos dos nossos propósitos, vamos ganhar uma compreensão verdadeira do que somos. Isso por si só já é transformador. Um pouco de compreensão verdadeira já faz com que pare de perder tanta energia com causas infundadas. Pare de desperdiçar a vida com demandas internas sem sentido. A verdadeira compreensão sobre nós mesmos ensina que o homem comum não é um ser unificado. A não ser na sua parte instintiva. Somos uma colcha de retalhos aleatória de hábitos e condicionamentos, pequenos e grandes.

“A maneira como andamos, escrevemos, nossos gestos à mesa ou em nossa profissão, posturas e assim por diante.  Cada um é composto por muitos pequenos hábitos, que se alterados intencionalmente podem servir de suporte para a auto-observação.

Jean Vaysse

São reações automáticas do intelecto em várias condições, que se sucedem em uma cadeia de associações.  E da mesma forma que temos hábitos físicos, também temos hábitos mentais, modos habituais de pensar que, sem o saber, também são muito poucos.”

Essa prática traz com o tempo um melhor entendimento entre o que são as imagens construídas internamente e o que realmente somos. Damos muito crédito a nossa individualidade e genialidade. Contudo, vamos compreendendo que nossa originalidade não é tão particular quanto julgávamos. 

Outra grande fonte de observação está no centro mental, principalmente quando se está distraído. Observe a tendência de viajar acordado em sonhos e ilusões.  Ambos são exemplos do mau funcionamento do centro intelectual e de sua preguiça. De como este centro procura poupar-se de todos os esforços que um trabalho efetivo exige. Usando da imparcialidade, logo nos tornamos cientes da presença danosa dessas ilusões. Ainda mais tanto que se mente para si. Também verá que devaneios e imaginação estão entre os principais obstáculos para a auto-observação. Nada é mais doloroso para uma pessoa do se ver como ela é.

Quanto mais observamos atentamente nossos hábitos, mais ganhamos conhecimento sobre si. Um desses hábitos que podemos observar é o de “falar por falar”. A luta contra o hábito de falar e contra todas as palavras desnecessárias nos força a ver o que é que surge em nós e usa a linguagem. Assim podemos coletar observações importantes sobre o que somos feitos.

Como visto, confrontar alguns de nossos hábitos mecânicos/instintivos tem o intuito de provocar reações voluntárias. Dessa forma, podemos colher impressões dentro do processo de auto-observação. É um processo proposital de provocar em si um distúrbio para então ver de maneira consciente toda a tendência de retorno a um movimento mecânico e automático.  Assim, o mesmo distúrbio pode ser provocado em observar o centro emocional, suas ilusões e fantasias. Entretanto, a observação do centro emocional é a mais complicada de todas. Portanto, exige alguma experiência acumulada pelas práticas anteriores. Podemos corrigir nossa postura quando observamos que estamos tortos. Podemos mudar um pensamento quando percebemos que se está viajando em um sonho acordado. No entanto, não podemos mudar nada no que diz respeito às nossas emoções.

“Vivemos com nada além de reações emocionais automáticas, sentimentos que se sucedem em rápida sucessão a cada instante de nossas vidas e fazem com que em cada circunstância algo agrada ou nos desagrade, nos atraia ou nos repele.”

Jean Vaysse

Entretanto, é a observação das nossas emoções que nos obriga a ver quais são os valores que temos defendido. Em outras palavras, é a observação das emoções que lhe mostra a quem você tem servido toda a sua vida. Mais uma vez, podemos com algum esforço alterar nossa postura física. Logo, uma nova postura física se torna o padrão mecânico. O corpo tem essa capacidade de moldar-se. Podemos alterar um pensamento negativo em positivo e vice-versa. No entanto, as emoções sempre estarão lá. A transformação do centro emocional é a mais longa e complexa de todas. 

Não obstante, devemos constantemente trabalhar para conhecer nosso padrão emocional. Para tanto, podemos nos envolver em uma luta contra hábitos emocionais para assim enxergar o nosso funcionamento emocional habitual. A melhor maneira de provocar essa observação é tentando não expressar emoções desagradáveis.

Expressamos emoções desagradáveis ou, emoções negativas, acreditando que estamos expressando o verdadeiro sentido de nosso ser. Porém isso é uma grande falsidade. A expressão das emoções negativas não passam de um sinal da própria fraqueza. Mostra a incapacidade de aceitar as coisas como são. Além disso, criam um enorme e inútil desperdício de energia imposto também aos que estão perto de você em uma reação em cadeia que espalha e multiplica a negatividade. 

Contudo, não devemos nos apegar a frustração de falhar nesse que é o mais complexo dos exercícios. Inicialmente vale muito mais o esforço contínuo do que o resultado que se obtém. Até porque se apegar a frustração da falha é talvez a maior expressão da emoção negativa direcionada a si. Com o tempo, o autoconhecimento irá gradualmente substituir o simples processo de auto-observação. Isso ocorre até o ponto em que vamos consolidando cada vez mais um estado de presença de si. Então, paramos de esquecer quem somos e assim um dia acontece a lembrança de si.

Nada é mais tenaz do que a falsa imagem que temos de nós mesmos. Portanto, até pequenas transformações levam muito tempo. Em suma, são necessários muitos autoenganos e muitas observações sinceras, antes que uma pessoa compreenda isso e se veja como é.

Quando a compreensão real aparece, passamos a entender que tudo deve ser virado de cabeça para baixo.  Cansamos de ser uma personalidade todo-poderosa. Ficamos desejosos de se libertar dessas funções e acolhemos nosso frágil Ser. Uma pessoa realmente deseja ser ela mesma. É seu próprio ser que deve ser reorientado e desenvolvido até que seja capaz de assumir o  lugar principal.  Para tanto, essa pessoa deve assumir o comando e usar para si a energia da vontade desses personagens que até então usurparam seu lugar.

Uma ótima semana de estudos para todos vocês,

Lauro

Esse é o terceiro artigo de uma nova série onde publico trechos, notas e comentários sobre o livro Toward Awakening: An Approach to the Teaching Left By Gurdjieff” de Jean Vaysse.

2 comentários em “Condições e significados para a verdadeira auto-observação”

  1. Eu tenho tido sonhos muito loucos ultimamente, sempre que procuro significado em
    Diversos sites significa a mesma coisa, transformação chegando, ou relutância com alguma transformação, medo de transfoacao

    Responder
  2. Não expressar emoções negativas é um bom exercício como exercício se elas forem compreendidas e transformadas em energia pro trabalho. Mas, se isso é mal feito, é mais uma repressão dentro da pessoa. E ainda a pessoa acha que está se trabalhando, mas é reprimida apenas. Sutilezas do ego.

    Responder

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