Vontade: Você tem fome de quê?

Somos uma somatória de vontades. Precisamos descobrir quais estão nos governando.

O desenvolvimento espiritual tem tudo a ver com sua vontade. Acima de tudo, você precisa descobrir qual é a sua vontade. Além disso, vontade anda junto com motivação. Assim, sua vontade gera a sua motivação. É a partir da vontade que nos movemos, que nos colocamos a procurar, buscar satisfazer esta vontade, por consequência, autodesenvolver.

Qual a sua vontade?

Contudo, possuímos uma hierarquia de vontades. Desse modo, saciar a fome, dormir e descansar são movimentos necessários para satisfazer as vontades básicas. Neste caso, não obedecer à vontade é colocar a vida em risco. 

Outras vontades que temos é de satisfazer às necessidades do ego. O ter, possuir, conquistar, ser reconhecido, são parte do processo de construção da potência. Afinal, o desenvolvimento espiritual é um processo de transmutação das energias mais densas para energias mais sutis. Então, precisamos de energia para crescer o Ser. A Vontade em si não é energia. É apenas um direcionador da atenção. A energia vem da potência que se acumula pela força do ego. Ou seja, ter ego é bom. O problema é achar que o desenvolvimento humano encerra no ego.

Dessa forma, a vontade dirige nossa atenção que, por sua vez, dirige as energias vitais (energia do corpo) para realizar algo. Então, se desconhecemos nossas vontades, basta auto-observar para onde a atenção está direcionando a força vital. Onde está sua atenção, está sua vontade.

Vontade e auto-observação

No entanto, se auto-observar, irá notar que nossas vontades vão sendo alteradas ao longo do dia. Ao mesmo tempo, é extremamente difícil manter-se fiel a uma única vontade por um longo período. Frequentemente a atenção é roubada por outras questões. Dessa maneira a força vital é sequestrada por outras vontades. Portanto, manter uma vontade coesa, é justamente o processo de construção da individuação e da capacidade de fazer no nível do Ser.

No Quarto Caminho se diz que não temos um centro coeso construído. Se tivéssemos este centro, este único “eu”, teríamos uma única vontade e nossos esforços seriam dedicados a satisfazê-la. Então, é preciso entender que temos muitas vontades dentro de nós. Cada vontade se conecta com um “eu” que vai brigar pela posse de sua atenção. 

Em contrapartida, a atenção é um recurso único, totalmente exclusivo. Assim como, para pessoas comuns, sem treinamento e preparo, não existe possibilidade de reter mais de uma atenção ao que está acontecendo a sua volta. Muita gente, principalmente as mulheres,  questionam este fato dizendo que conseguem dar atenção a múltiplas coisas. Porém, isto é uma falta de entendimento do que é atenção. Claro que em determinados momentos podemos gerenciar múltiplas tarefas. No entanto, neste caso, a atenção está atuando com um gestor de time ou um maestro na orquestra. A atenção na orquestra é única. A atenção está em conduzir a música. Não está em flutuar a atenção em milhares de coisas ao mesmo tempo. Assim, o maestro não está tocando todos os instrumentos. Está regindo.

O exercício de construir o Ser é aprender a juntar as vontades

Na maioria das vezes, o que ocorre é ainda uma outra confusão. Ao passo que temos uma habilidade de trocar rapidamente o foco da atenção. Esta habilidade permite que se altere entre vários  “eus” e, por consequência, suas vontades. É como se fosse uma roda de pessoas em um quarto escuro e que a cada momento um se levanta dizendo o que fazer. Com o tempo a gente fica tão bom em alterar entre estes “eus” e suas vontades, de maneira tão rápida, que nem percebe o que fez. Tudo isto se torna mecânico, automático. Por consequência, não mais notamos o truque que nós mesmos criamos. Enfim, como um truque de mágico que você sabe que é uma trapaça mas você não vê. E é justamente por não ver que parece mágica. Pois, a ilusão engana a mente.

A ilusão da união

Por fim, por não termos um centro e um mestre dentro de nós, vivemos a vida como um autômato de múltiplas vontades a serem satisfeitas. Algumas vontades são legítimas e totalmente necessárias. Outras totalmente infantis e infundadas, no entanto, não deixaram de reivindicar pela nossa atenção. 

Estes “eus” com suas vontades roubam nossa atenção a ponto de ficarmos totalmente identificados com o hábito. Porém, dentro deste processo existe uma cristalização da personalidade. E esta personalidade, que parece ser única e coesa, na verdade, é um bando de “eus” liderados por um chefe. Este chefe define quem ele irá satisfazer. É o hábito da identificação, recompensa e satisfação que consolida a personalidade cristalizada. 

A cada interação positiva ou negativa todos estes eus vão se aglutinando, criando um campo gravitacional em torno deles. Dessa forma, ao fim da infância, o campo que tiver maior força e aglutinação ganha a guerra da cristalização. Por fim, toma o controle da atenção. 

Esta coesão não será sólida por ser o resultado das forças da vida (veja textos anteriores sobre Força 3 e Lei de Três). Assim como não será a dona da atenção. E, justamente quando a personalidade “dorme”, alguns desses “eus” derrotados em batalhas anteriores tentam tomar o controle da atenção. Neste momento duas coisas podem acontecer. A ilusão da personalidade mantém o aparente controle. Por fim a pessoa nem se dá conta do que aconteceu. De que reagiu de forma totalmente irregular com suas “convicções”. 

Por outro lado, quando o ego percebe de que foi tomado por outras forças, este reage para retomar o controle. Da mesma forma, isto equivale a tomar um choque. Às vezes, as tropas “inimigas” são numerosas, infiltrando no campo da personalidade cristalizada. Assim, conseguem  persuadir “eus” aglutinados a migrar de lado. O mundo da personalidade simplesmente colapsa. Afinal, é um castelo feito de barro em terreno arenoso. Daí, resta pedir ajuda ao terapeuta ou psicólogo de plantão pra ajudar a entender este novo centro da personalidade. No entanto, normalmente o pedido de ajuda não é para buscar a transformação, e sim, para recuperar o terreno pedido.

Definitivamente estas crises servem para mostrar que a personalidade não é o centro e que não temos um centro consolidado. No entanto, quando uma pessoa entende este processo através da auto-observação e outras técnicas de trabalho interior, consegue superar estas crises de uma maneira transformadora. Com isto, pode até chegar ao ponto de entender o processo e a participação em atividades terapêuticas ganha uma outra conotação. Em suma, não será mais uma busca para corrigir o ego e sim uma busca para construir o Ser.

Junte suas vontades para construir o seu Ser

Vontade que te conecta ao trabalho interior

No entanto, nada disso irá acontecer enquanto não houver vontade suficiente que direcione ao desenvolvimento do Ser. Da mesma maneira, quanto mais longe se quer ir no desenvolvimento humano, mais a vontade será testada. Por consequência, mais sacrifícios serão necessários. Inicialmente serão aqueles sacrifícios mais simples como largar o celular por 10 minutos e fazer uma meditação ou exercício físico. Depois o sacrifício exige mais compromissos. E mais compromissos irão se consolidar em mais comprometimentos. 

No entanto, boa parte desta jornada acontece ainda no nível da personalidade. Assim, a pessoa acredita que está fazendo, que está trabalhando em si, que está se comprometendo e aumentando o nível de seu compromisso. Só que cedo ou tarde ela dorme, sua atenção será capturada por aquelas vontades soterradas que farão a pessoa cometer os maiores deslizes. 

Desta maneira, o entendimento do Trabalho diz “uma pessoa que faz pouco, porém, faz consciente, ajuda mais no longo prazo que aquele que faz muito, porém, ainda está dormindo”. Tentar fazer enquanto dorme é a fonte de criação dos revolucionários, gurus, influenciadores, radicais, ativistas e todo povo que se envolve em tudo que tem “-ismo”.

Perceba que a vontade cresce com a energia que a alimenta. E que energia é esta? Já falei aqui. A energia da atenção que canaliza a energia vital (energia do corpo). Dê sua atenção a futilidades e sua vontade de ser fútil crescerá. Mas, lembre que a vontade se revela pela motivação. Alguém pode querer seguir o caminho da luz, o caminho de Deus, no entanto, a motivação é outra. Não há motivação de se sacrificar ou transmutar-se. A motivação, estando ainda sob o controle do chefe da quadrilha do ego, usurpa o discurso correto. Tudo isso na tentativa de se perpetuar no poder. Logo, a vontade, por detrás da ação, ainda não é a que  conduz a luz.

Então, a psicologia em si é bastante simples. Não há nada além do que foi escrito aqui. No entanto, o jogo de gato e rato de auto-observar isto em primeira pessoa é sim muito desafiador. Enxergar sua vontade é praticamente impossível. No entanto, a auto-observação mostra a coerência de nosso discurso interno com as ações. Então ,a capacidade de uma pessoa em receber estes choques e ainda se manter de pé, sem cair no sonambulismo ou reagir defendendo o chefe da quadrilha, é que demonstra a capacidade desta em trabalhar sobre si.

Vamos num exemplo: contam, que certa vez, uma mãe pediu a Mahatma Gandhi conversar com seu filho, para que ele parasse de comer açúcar. Gandhi pediu que a mãe que lhe desse umas semanas para fazer isto. Depois do tempo decorrido, ele foi ao menino e disse a ele parar de comer açúcar. A mãe, diante do discurso tão curto, questionou Gandhi porque ele não disse isto no dia em que ela me fez o pedido. Ele então respondeu que, naquele momento do pedido, também possuía o hábito de comer muito açúcar. Por isso, não poderia  pedir a criança fazer algo que ele mesmo não fazia. O tempo pedido foi para que ele próprio parasse de comer açúcar. Gandhi tinha defeitos e virtudes, mas, entendia muito bem o que é trabalhar sobre si.

Para refletir:

As vontades que carrego são justas ou não? São vontades minhas ou me foram impostas por alguém? Por quê não manifesto algumas vontades? E por quê manifesto outras? Quais eu devo cultivar? Quais me são prejudiciais? 

Qualquer imposição exterior a estas respostas prejudica o trabalho de autoconhecimento. Estas respostas são dadas às crianças para que elas se orientarem na vida. A um adulto cabe construir sua própria verdade. Aprender a responder as questões mais inquietantes de sua alma. Quem não faz isso não está eliminando estas vontades, pois, elas estarão sempre em tocaia aguardando o momento de tomar nossa atenção. Se não encontrar sua vontade, nunca terá necessidade e, por consequência, não há sentido para o trabalho.

Lei de Três

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