Quando o aluno está pronto o mestre desaparece

A evolução de nossa psicologia só se faz possível a partir do momento em que aceitamos o nível em que nos encontramos. Não há nada a transformar se você acredita já ter uma alma, em ser uma pessoa completa. Perfeição significa “por assim feito”. O que está feito é perfeito. Dessa forma, só há evolução para aqueles que percebem que estão longe de estarem feitos. 

O primeiro passo para os degraus dessa escada evolutiva da consciência passa em aceitar o que somos. Entretanto, isso já é bastante doloroso e complicado por si só. Dessa forma, o processo de elevar-se para o nível de homem número 4 só pode ser feito com a ajuda de algo novo. Igualmente, essa novidade começa na nova educação. Recebemos uma nova educação  através de pessoas que já passaram pelos níveis inferiores e encontram-se em níveis mais elevados. 

Analogamente, não há como um grupo de leigos tornarem-se doutores. No entanto, um doutor pode ensinar um grupo de leigos. Assim, desse grupo podem nascer novos doutores. Alguns podem vir até a superar seus mestres. Ou seja, desenvolver seu espírito não é diferente de um sistema de aprendizagem utilizado para tornar-se um profissional. Entretanto, o “si mesmo” torna-se matéria do trabalho. Nada é impossível.  Contudo,  requer sacrifícios sem contrapartidas.

Enfim, para se formar em uma profissão uma pessoa também necessita se sacrificar. No entanto, esta almeja reconhecimento e frutos desse trabalho. Tanto emocionalmente quanto financeiramente. Porém, atravessar a porta do coletivo para a formação de sua individualidade é uma ação antinatural. No início são muitos esforços com muitas derrotas para pouco progresso. Além disso, estamos em um mundo que pouco nos incentiva a fazer diferente. Dessa forma, o mestre faz toda a diferença.

O mestre é uma pessoa que já trabalhou o suficiente para saber que há sim uma saída além dessa dor e sofrimento. O mestre é um guia e referência. Tanto detém o entendimento sobre o subjetivo/objetivo quanto orienta seu aluno para que o mesmo tenha progresso. Todavia, também haverá níveis distintos de mestres. 

O mestre é uma pessoa que aprendeu a trabalhar nos três centros e já tem capacidade de discernir os aspectos objetivos e subjetivos de si. Assim, a diferença entre os mestres que estão no nível do homem número 4 a 7 é a quantidade de trabalho realizado em si. Nesse sentido, o homem número 7 não possui vestígios de razão subjetiva.  Esse homem número 7 é conduzido por sua razão objetiva. Isso é o mesmo que dizer que não mais possui atrito entre seus 3 centros e estes trabalham em perfeita harmonia. Portanto, são os verdadeiros seres humanos santos dos santos. Todavia, são poucos, verdadeiramente raros. Normalmente suas vindas transformam radicalmente a cultura daquele tempo e deixam rastros de sabedoria por milênios.

Entretanto, voltemos aos níveis mais tangíveis aos quais podemos almejar em nossas trajetórias de vida. Afinal, ninguém chega ao topo da montanha sem passar pela base da mesma. Ouspensky descreve o seguinte sobre o homem número 4:

“O homem número quatro já está em um nível diferente do homem número um, dois e três;  ele tem um centro de gravidade permanente que consiste em suas idéias, em sua valorização do trabalho e em sua relação com a escola.  Além disso, seus centros psíquicos já começaram a se equilibrar;  um centro nele não pode ter tal preponderância sobre os outros, como é o caso das pessoas das três primeiras categorias.  Ele já começa a se conhecer e começa a saber para onde está indo.”

Fiz os seguintes diagramas abaixo para ajudar a compreender essa passagem. A primeira figura representa o domínio de um centro sobre os demais dois centros. O caminho é buscar o equilíbrio entre esses centros representados pela segunda figura.

Note que Ouspensky deixa claro que o homem número 4 possui um centro de gravidade permanente em torno das ideias do Trabalho. Dessa forma não mais questiona o que precisa fazer. No entanto, pode não ter todo o conhecimento e disposição necessária para realizar seu trabalho. Assim, pode encerrar seu desenvolvimento neste nível sem maior evolução. 

Porém, pode perder o que conquistou se eventualmente parar de trabalhar em si, afastando-se do trabalho. Frequentemente, não perderá o conhecimento obtido, mas, voltará a adormecer. Ao passo que volta a agir de forma mecânica, sob o domínio de seu centro predominante (retorno a figura 1). Logo, isso ocorre por ainda não ter um eu cristalizado. Ao contrário, possui um eu embrionário que se nutre pela força das ideias do trabalho. Acima de tudo, nutre sua essência pela energia salva, antes direcionada a personalidade.

A figura abaixo representa o homem número 4 como o ponto azul que se desloca acima dos três centros. Esse já não está mais no mesmo nível do homem 1,2 e 3.

O homem número 5 já possui um eu solidificado. Isso equivale dizer que possui fé em si. Acredita em seu trabalho e desenvolvimento. O homem número 5 é o  fruto do desenvolvimento contínuo passando pelo número 4. Representei com a estrela de cinco pontas ou pentagrama. Sua figura remete ao homem vitruviano (cabeça, pernas e braços abertos). O círculo ao centro representa seu eu cristalizado. Tal mestre não mais depende de uma escola para se desenvolver. O conhecimento pertence a ele. 

Por fim, o homem número 6 possui um eu indivisível. Assim como o número 5, tudo que lhe acontece passa por este eu . Isto significa que possui um centro próprio. Tanto é guiado por seu próprio entendimento, quanto por sua própria razão. Além disso, sua manifestação é coerente com seu equilíbrio. 

De outra forma, um número 4 por diversas vezes falhará em sua manifestação. No entanto, entenderá que errou e buscará corrigir seu erro. Tudo isso movido pelo remorso de sua consciência. Bem como sua consciência não descansará enquanto não sentir ter feito o devido reparo. 

O homem 6 já age “no tempo certo”. De maneira idêntica, impede que manifestações involuntárias ocorram. Como resultado, vive por sua vontade e desejo. Representei como a estrela de 6 pontas, a estrela de Davi ou selo de Salomão. Esse símbolo mostra a máxima hermética do que há em cima, há também abaixo. É a ligação entre mundos superiores e inferiores, atualizando o meio, em plena harmonia

Em síntese temos que 

  •  O homem 1,2 e 3 não tem consciência de que age errado. 
  •  O homem 4 possui consciência e tenta impedir suas manifestações incorretas. Afinal, entende que tais manifestações são frutos de sua subjetividade. 
  • O homem 5 possui um eu próprio e já não manifesta tanto em desacordo com sua consciência
  • O homem 6 age no tempo presente, consciência objetiva de tudo que é possível ao homem
  • O homem 7 tem consciência objetiva de tudo que é possível saber. 

Então, quando o mestre está pronto, surgem oportunidades de trabalho para o trabalho. Da mesma forma, os alunos surgiram. Ao mesmo tempo, quando o aluno está preparado, encontra o mestre que lhe é necessário. Muitos sonham com o mestre perfeito. Gostariam de ter como mestre um homem número 7 de puro amor e bondade incondicional. No entanto, devemos nos contentar com os mestres que cruzamos na vida. Enfim,  eles também refletem o nível de nosso ser.

Por fim, quando o aluno está pronto o mestre deve desaparecer. Essa troca é fundamental para que não aconteça acomodações.

Encerro aqui essa trilogia sobre os estudos dos níveis de ser pelo modelo de Gurdjieff. Na próxima semana vamos abordar o conceito de níveis de consciência pelo uso de outros modelos. 

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: