Da personalidade para a essência, parte 3

Temos em nós uma essência, algo que molda nosso comportamento, atitudes, perspectivas e motivações. Isso é algo que carregamos desde o nosso nascimento. É como um plano de voo para essa vida. Porém, a nossa personalidade cresce ao redor dessa essência. Com o passar do tempo, a essência acaba sendo soterrada pela personalidade. Com isso, a essência recebe cada vez menos os elementos necessários ao seu crescimento. Assim, a essência geralmente deixa de se desenvolver muito cedo. O ser de um adulto muitas vezes fica preso e reflete um ser entre os seis e os doze anos de idade. Isso ocorre mesmo uma pessoa muito intelectual e muito culta. Tal pessoa pode escrever livros, tornar-se rico ou governar uma nação. No entanto, é pouco mais que sua personalidade. Portanto, sua essência não se manifesta mais a não ser em sua vida instintiva. Às vezes, em suas emoções mais simples. Você vê a parte 1 e parte 2 aqui.

Harmonia é sempre a palavra-chave

É importantíssimo para o Ser que a personalidade se desenvolva harmoniosamente com sua essência. Todavia, quase sempre ela se desenvolve de forma desigual. Quanto mais “culta” uma pessoa, maior será a sua personalidade. Toda a civilização, ciência, arte, filosofia, política, nada mais é do que uma manifestação da personalidade. Entre essas pessoas “cultas”, o seu Ser permanece infantil, ou estúpido. Por outro lado, entre as pessoas que vivem em contato com a natureza, e em condições difíceis, o Ser tem mais oportunidades de crescer. Todavia, a personalidade geralmente é muito pouco desenvolvida. Afinal, tais pessoas não têm educação formal, instrução, cultura ou conhecimento mais abrangente. Em outras palavras, as pessoas que vivem em contato com a natureza permanecem mais em contato com seus instintos e percebe uma harmonia entre a natureza e o Ser. Porém, a cultura que alimenta a personalidade também é responsável pelo desenvolvimento das relações humanas, ciência e tecnologia. O que é importante para a atualização do Ser.

O desenvolvimento da personalidade até certo ponto é tão necessário quanto um certo crescimento da essência. Uma pessoa que busca o entendimento não pode realizar um trabalho real sobre si mesmo sem um estoque suficiente de dados e conhecimentos adquiridos e “não seus”. Quem assim fizer acaba em outros caminhos como o do “faquir” ou o caminho do “monge”. Afinal, tais caminhos não requerem nenhum desenvolvimento intelectual. Ao mesmo tempo, sem um desenvolvimento suficiente da essência, o verdadeiro trabalho sobre si mesmo não é possível. 

O crescimento interior vem da essência

Se a essência é muito pouco desenvolvida, é indispensável um trabalho preliminar relativamente longo para trazê-la ao nível desejado. Além disso, esse trabalho será infrutífero se a essência estiver apodrecida por dentro ou se tiver contraído algum defeito irremediável. Infelizmente, esses casos são muito comuns. Um desenvolvimento anormal da personalidade muitas vezes interrompe o desenvolvimento da essência em um nível tão baixo que a torna uma coisa pequena e deformada, da qual nada pode ser esperado. Isso pode até levar a essência de uma pessoa a morte, enquanto seu corpo e personalidade ainda estão vivos. 

“De fato, quase todas as pessoas que vemos nas ruas estão praticamente vazias por dentro e na verdade já estão mortas. É uma sorte para nós não podermos ver isso e não saber nada sobre isso. Pois tal visão, com suas consequências, seria insuportável para nós. As pessoas que se tornam capazes de vê-lo, em geral, primeiro ganharam preparação suficiente para suportar essa visão.”

Jean Vaysse

Esse fato é muito chocante para muitas pessoas. Muitos acreditam que todos temos uma chance de crescer. Que há oportunidades iguais para tudo. Porém, a realidade é diferente. Uma pessoa que perde completamente sua essência sucumbiu à personalidade. Pode ser uma pessoa aparentemente normal, fazer coisas da vida, pode ser até mesmo muito “espiritualizada” e tudo o mais. No entanto, qualquer tipo de trabalho um pouco mais profundo exigirá um grande resgate de alma. Por vezes “milagres” acontecem. Sendo assim, esse fato não torna ninguém mais especial que outro, e nem melhor. Todavia, se você tem consciência disso, deve entender que isso lhe traz mais responsabilidades.

A tragédia moderna, o culto à personalidade

Assim, a tragédia comum do homem em nossa civilização é que sua personalidade tomou o lugar do Ser. A personalidade forma uma concha que isola a essência e impede que qualquer coisa chegue até a essência. É a personalidade que recebe todas as exigências, impressões e choques da vida. Assim, ela responde à sua maneira e dirige tudo de acordo com suas próprias regras. Acima de tudo, para seu próprio benefício. Responde conforme a sua estrutura e de forma reflexiva, superficial e imediata. Em suma, a personalidade reage. Ela vive e se alimenta dessas reações. Cada uma das quais reforça sua estrutura e fortalece seu condicionamento. Então, tudo isso é mantido como um “todo” por um aparelho emocional altamente sensível, a saber, seu “amor-próprio”. 

A essência não é capaz de reagir. Quando uma impressão a atinge, a essência a confronta imediatamente com a experiência vivida, a “compreende” e, segundo essa compreensão, responde. A essência vive e se alimenta desse processo de compreensão e resposta pelo qual assimila o conteúdo da nova experiência. Enfim, é assim que a essência cresce. Mas sua maneira de responder é muito mais lenta do que a reação da personalidade. 

A personalidade reage o tempo todo. Além disso, suas reações são mecânicas de acordo com a sua programação. Não há nada de novo nisso. Algo lhe irrita e você imediatamente demonstra essa irritação. As descargas emocionais até nos fazem crer que há algo novo ali. Porém, não há nada de novo. Simplesmente a mesma reação que segue uma programação rigida de julgamentos e fantasias. Ao contrário, tudo é novo para a essência. Tudo é uma nova realidade a ser compreendida e avaliada perante a atual situação e o seu atual nível de entendimento. A personalidade tem de dar resposta a tudo que lhe é perguntado. A essência não importa de ter de ponderar ou até descobrir que nada sabe opinar sobre aquilo.

O contato com a essência é o contato com a sinceridade

A personalidade capta uma impressão assim que é recebida. Ela reage imediatamente. Nada tem tempo para chegar à essência. Em certo sentido, a essência é roubada por um “curto-circuito” da personalidade. Assim, aos poucos a personalidade cresce e a essência declina e atrofia por dentro. Todavia, no fundo de uma pessoa, um sentimento pode aparecer de vez em quando e avisar da situação em que se encontra se ele se voltar para si mesmo. Desde que ainda não seja tarde demais, essa pessoa pode sentir que suas reações internas, as de sua essência, são verdadeiramente suas e sinceras. Enquanto suas reações habituais, vindas de sua personalidade, parecem pertencer a um mundo estranho e fora dela. Um mundo que lhe faz obedecer às regras ou leis de um mundo exterior que não são dele. 

Essas reações não têm nenhuma conexão com o que ele sente ser ele mesmo. Assim, podem facilmente ser consideradas aceitáveis ​​como uma traição. Tais reações “são o que são”. Todavia, não têm nenhuma sinceridade em relação a si mesmo. Dessa forma, abrir espaço para a consciência interior é a primeira qualidade necessária para quem deseja empreender um trabalho de autoconhecimento. Logo, é imprescindível ter essa necessidade de sinceridade para consigo mesmo. A palavra sincera vem de “sem cera”. Quando um escultor fazia uma marca indesejada na pedra ou ela apresentava um defeito, ele cobria essas imperfeições com cera de abelha. Assim, ser sincero consigo mesmo é aceitar suas imperfeições.

Isto é o que a educação deveria ensinar a uma criança antes de tudo: aceitar seus defeitos sem se martirizar. No começo, este é o melhor guia para uma pessoa que deseja conhecer a si mesmo. Deve achar a capacidade de ouvir a si mesmo e inclinar para si mesmo com amor verdadeiro. Um amor agora pela essência. Achar a capacidade de amar o verdadeiro auto-amor. O amor-próprio, o egoísmo “bom” pela essência e pelo ser, é análogo ao amor-próprio pela personalidade.

Não é o mal e sim a ignorância que impera

O fato é que normalmente as pessoas desconhecem completamente esta situação. Se a vida de uma pessoa transcorre sem dificuldades muito sérias, logo, pode nunca dar conta de sua verdadeira situação. Assim, algo deve desapontar profundamente para que algo possa mudar a vida de alguém. Com isso é necessário receber um choque forte o suficiente para colocar em questão a personalidade do “Sr ou Sra. Fulano de Tal”. Bem como toda a estrutura que ela representa. 

Para dizer a verdade, basta que uma pessoa se veja como é. Inescapavelmente ver-se reagindo como reage a diferentes circunstâncias com personagens contraditórios. Cada um dos quais vive para si egoisticamente. vivem de acordo com o que lhe agrada sem consideração pelo resto, e, menos ainda, pela realidade. Observar a si mesmo assim faz ver que algo é falso em seu “modo de vida”. Assim como que os seus valores estão de cabeça para baixo. Contudo, todo um sistema de dispositivos de amortecimento e desculpas bem estabelecidos em sua pessoa o impedem de ver isso. As desculpas são diferentes dos amortecedores no sentido de que são um desenvolvimento artificial. Estão sempre mudando, sempre diferente e dependendo do que for conveniente no momento. 

As desculpas podem servir para expressar amortecedores, mas não têm raízes profundas em si mesmas. A não ser a necessidade urgente de cada personagem, diante de suas inadequações e contradições, de sempre “estar certo”. Ao mesmo tempo, é necessária uma certa inteligência para encontrar sempre “boas” desculpas. 

Para a personalidade, “desculpas sinceras” interessam

Os amortecedores, ao contrário, são dispositivos internos profundamente arraigados. São condicionamentos que estão firmemente fixados na estrutura da personalidade e cresceram junto com ela para amortecer, camuflar ou evitar as contradições que compõem a vida habitual do homem. Assim, não estão lá apenas as contradições entre seus diferentes personagens, mas sobretudo, as contradições entre eles e a essência. O que é decorrente da predominância anormal que assumiram. 

Os amortecedores são mecanismos automáticos permanentes dentro da estrutura da personalidade, com cujo desenvolvimento foram construídos. Mais do que isso, eles tornam possível seu desenvolvimento. Portanto, são eles que mantêm sua predominância. No entanto, esse mecanismo é às vezes acidentalmente travado pela vida em momentos de um choque violento. Como por exemplo, um acidente ou a morte de um ente querido. Ou ainda, em um momento de grande desilusão ou de uma situação nova e imprevista. Se uma pessoa ainda é capaz de ter uma certa sinceridade para consigo, será então levada a questionar novamente seu modo de vida habitual. Nem que por um breve momento, sentirá a necessidade de “compreender”. Assim, despertará nessa pessoa um interesse especial por compreender as causas de sua situação. Então, por um instante, poderá reencontrar em si mesmo o desejo de compreender seu ser e compreender sua vida.

O Trabalho interior é um trabalho de arqueologia

De fato, há em cada um de nós um lado mais ou menos enterrado, adormecido em maior ou menor grau. Por outro lado, há também o que se interessa por compreender a si mesmo e sua vida. Por causa dessa orientação especial para um polo de interesse fundamental, a saber, a compreensão da vida, pode ser chamado de “centro magnético”. Não é um “centro” no sentido estrito da palavra. É apenas um centro de interesse. Assim, é com o “aparelho magnético” que lhe corresponde e pertence à personalidade, não ao ser. É um interesse para si mesmo, voltado para a compreensão de si mesmo, enquanto ordinariamente todos os interesses do homem estão voltados para o exterior. 

É o interesse da personalidade por essa demanda latente do ser que se cobre de um interesse voltado para si mesmo. Não obstante, um interesse como qualquer outro interesse. A personalidade de uma pessoa geralmente tem muitos interesses desse tipo. Tal “interesse por si mesmo” pertencente à pessoa. Todavia é inteiramente diferente da autoconsciência, que se desenvolve em uma pessoa desperta e pertence ao seu Ser. No entanto, o interesse em si mesmo, devidamente orientado, pode levar à autoconsciência.

Acione sua bússola, encontre o seu Ser

Este aparato magnético se desenvolve durante a educação. isso ocorre desde que a educação não seja muito anormal. É formado pelas partes emocionais ou intelectuais da personalidade que são sensíveis à necessidade da essência. Logo, também sensíveis a certas influências externas que chamam o homem a “compreender”. Todavia, como tudo na personalidade, o aparelho não é ativo por si mesmo e apenas reage às influências que o atingem. Mas enquanto o resto da personalidade reage a influências de um tipo criadas na vida pela própria vida, o aparelho magnético reage a influências de outra ordem, criadas fora desta vida por homens conscientes para propósitos definidos. 

Essas influências vêm do círculo interno e esotérico da humanidade e geralmente são incorporadas na forma de doutrinas, ensinamentos religiosos, sistemas filosóficos, obras de arte e assim por diante. Essas influências são conscientemente liberadas na vida com um objetivo definido: a de se misturar com as influências da primeira mentalidade, vindas da vida. Contudo, tais influências são conscientes apenas em sua origem. Quando entram no grande turbilhão da vida, caem sob a lei do acidente e começam a agir mecanicamente. Em outras palavras, deixam de ser adaptáveis, podem ou não agir sobre uma determinada pessoa e podem ou não ter alcance. 

O despertar pode vir de um chamado, mas é preciso criar discernimento

As influências de segunda ordem são gradualmente reduzidas a influências de primeira mentalidade. Isso ocorre porque sofrem toda sorte de mudanças e alterações na vida no processo de transmissão e interpretação. Ou seja, acabam efetivamente mesclados. Assim, tudo depende de haver possibilidade de uma pessoa receber esses dois tipos de influências e saber diferenciá-las. Sua distribuição em seu nível não é igual. Além disso, cada um tem uma sensibilidade diferente. Uma pessoa está mais sintonizada com as influências de fora da vida e recebe mais delas. Outro recebe menos, enquanto um terceiro dificilmente é sensível a essas influências. Isso é inevitável, depende da estrutura da essência e já pertence ao reino do destino. 

Mas se considerarmos a situação geral, as condições são quase as mesmas para todos e pode-se dizer que a dificuldade é mais ou menos a mesma para todos. E nela consiste em separar os dois tipos de influências. Se uma pessoa ao recebê-las não as separa, não vê ou sente sua diferença, sua ação sobre ele também não será separada. Ou seja, agirá sobre ele da mesma forma, no mesmo nível. Assim, produzirão os mesmos resultados e não poderão conduzi-lo a nenhuma mudança. Por outro lado, se uma pessoa no momento de receber essas influências souber efetuar a necessária discriminação e, deixar de lado as influências não criadas na própria vida, gradualmente se tornará mais fácil para essa pessoa separá-las. Depois de certo tempo, tais influências deixam de ser confundidas com influências comuns. Portanto, começam a produzir resultados diferentes em seu Ser. É isso que abre novas perspectivas para a alma.

Vamos continuar a análise sobre essência e personalidade nas próximas publicações. Um ótimo início de semana a todos e bons estudos a todos vocês

Lauro Borges

Esse artigo faz parte de uma série sobre trechos, notas e comentários sobre o livro Toward Awakening: An Approach to the Teaching Left By Gurdjieff” de Jean Vaysse.

3 comentários em “Da personalidade para a essência, parte 3”

  1. Acordei com essa dúvida, não sei se veio pra mim enviado pelo universo esse texto ou coincidentemente caiu como uma luva. Sinto atualmente a serenidade de como observador me conscientizar de quando estou mergulhada na personalidade, ego e quando tem algo legítimo lá no fundo tentando se manisfestar, e hj graças ao nosso grupo maravilhoso é possível olhar como observador, identificar, deixar o sofrimento vir e partir e ficar com aprendizado dele. Gratidão eterna leissagradas e grupo maravilhos!😘❤️🙏

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